domingo, março 23, 2008

IMBITUBA

Lá de cima,
quando vejo a Praia do Porto,
sinto-me privilegiado.

Por estar ali,
abençoado,
aproveitando cada um de seus tantos cantos.

Agradecido por todo sempre
por tê-la conhecido e incluído em minha vida
toda sabedoria e pureza de seus variados recantos.

A descida da Ribanceira,
escalavrando morro,
contemplando as imensas trilhas da Luz.

Os finais de tarde na Vila,
aonde fico a imaginar-me dono do mar,
desenhando linhas nas ondas perfeitas.

As noites no Farol,
em que passei horas e mais horas,
no mirante,
acompanhando o trafegar de barcos.

E as pessoas que lá conheci,
sempre dispostas a aprender,
ensinar e conhecer;
dias e noites para lá de plenas.

Sinto-me privilegiado e abençoado,
por ter Imbituba sempre em minha rota.

LUA CHEIA - NOITE CLARA

Meu céu agora está limpo,
como que varrido pela brisa,
que agora sequer movimenta árvores.

As estrelas estão todas ali,
no mesmo lugar de sempre,
enfraquecidas pelo luar pleno.

Como imaginara,
o brilho intenso voltaria;
agora, tudo parou a minha volta,
em completo silêncio,
é a noite mais clara de minha vida.

sábado, março 22, 2008

LUA CHEIA - NOITE ESCURA

O céu nublou,
escondeu a lua,
que guiava cada movimento da vida.

Diante do escuro repentino,
na total penumbra,
tive imensa dificuldade.

As referências se foram,
mais uma vez,
os sentidos falharam em total desorientação.

Resolvi esperar,
inerte,
porque não se deve combater.

O mesmo vento que trouxe nuvens,
estou certo,
terá de levá-las e devolver-me
a claridade perdida.

COULTRAINE

A lua surgiu.
plena e luminosa,
clareando a mente,
transformando árvores em enormes criaturas.

Cevei um amargo,
servi uma dose de butiá,
preparei um caximbo
Captain Black - branco

Com o piano de Coultraine
voei longe, em fumaça espessa,
de sabor forte e amargo,
vento denso...
que embalava criaturas e pensamentos.

terça-feira, março 18, 2008

SAÚDE

"O importante é ter saúde". É essa sentença, dita de um mendigo, com bafo de álcool exalando, às 15 horas, debaixo de um sol torrencial, parece soar engraçada e contraditória. Faz pensar. Em meio à confusão do dia-a-dia, em que todas as coisas - e também as pessoas - são deixadas de lado, ouvir isso de alguém tão desamparado socialmente me leva à reflexão. Mas há tantas coisas sobre as quais refletir. E, geralmente, não consigo tirar conclusão alguma do tanto que reflito. Só consigo concluir que está cada dia mais complicado acordar, sair da cama, caminhar. O importante é que tenho saúde, penso. Sim, mas até quando ? - é o pensamento seguinte. E será que tenho mesmo ? Saio a dar um giro pela cidade e vejo uma senhora, beirando os setenta, caminhando curvada, acima do peso, com nítida dificuldade para dar uns breves passos, em meio à confusão do trânsito e das calçadas. Motoqueiros buzinam incessantemente e se contorcem em meio a centenas de carros. Sinaleiras abrem e fecham e os cruzamentos ficam cada vez mais entupidos e confusos. Buzinas, muitas buzinas. Tento fechar o vidro e ligar o som num volume suficiente a me privar do mundo externo, mas está muito quente, abafado. Volto à realidade e é difícil pensar em algo diferente de "o importante é ter saúde". Chego num CFC, preciso renovar minha habilitação, já vencida aliás. Uma série de instruções no balcão, incluindo a necessidade de levar, numa próxima ocasião, fotos 3x4 (coisa que eu imaginei nem existisse mais), um comprovante de endereço (para quê?!). Daí por diante é só pagar algumas taxas (que reunidas totalizaram R$ 116,oo), realizar um exame médico e uma prova de defesa defensiva e meio ambiente (?!). No fundo, penso, já imerso no trânsito, o que importa é pagar as taxas. E como é complicado estar em dia com as taxas da vida. Com as taxas que nos cobram o governo, o comerciante, o flanelinha e todos que nos rodeiam. Não é difícil alguém te fazer sentir devedor de algo, de uma obrigação não contraída, de um passe na quadra, de uma passagem no trânsito, de um sorriso ou de uma lágrima, de uma mentira ou de um maço de cigarro, de uma frase bem colocada, de uma dessas tantas taxas. O próprio telefone, hoje em dia, para que serve ? Talvez para dar trabalho a muita gente que te importuna, em meio a esse monte de coisas que é o dia-a-dia. Aquele mendigo, o que acha importante ter saúde, me perguntou se eu trabalhava ou só ficava em casa repousando. Sorri e respondi, já saindo com o carro, que trabalhava. Sim, claro, trabalho. Aparentemente trabalho e, aparentemente, tenho saúde. Um dia volto lá e retomo esse diálogo perdido.

quarta-feira, março 12, 2008

MUCHAS GRACIAS

"Hay que andar tanto por el mundo
para constatar ciertas cosas,
ciertas leyes de sol azul,
el rumor central del dolor,
la exactitud primaveral.

Yo soy tardío de problemas:
llego tarde al anfiteatro
donde se espera la llegada
de la sopa de los centauros!
Allí brillan los vencedores
y se multiplica el otoño.

Por qué yo vivo desterrado
del esplendor de las naranjas ?

Me he dado cuenta poco a poco
que en estos días sufocantes
se me va la vida en sentarme,
gasto la luz en las alfombras.

Si no me dejaran entrar
en la casa de los urgentes,
de los que llegaron a tiempo,
quiero saber lo que pasó
cuando cerraran las puertas.

Cuando se cerraron las puertas
y el mundo desapareció
en un murmullo de sombreros
que repetían como el mar
un prestigioso movimiento.

Con estas razones de ausencia
pido perdón por mi conducta." (Pablo Neruda, "Muchas Gracias", do livro Jardim de Inverno, p. 55)

terça-feira, março 11, 2008

SERRAMALTES

Comprei 21 garrafas de Serramalte. E com essa caixa de cerveja cheguei em casa. Já havia tomado vinho demais e o sol que brilhava lá fora convocava para um banho na piscina. Mergulhei profundamente. O dia transcorreu de forma rápida, o sol pelas estrelas, já nem lembro detalhes, só do engradado de Serramalte sendo carregado até a frente da geladeira. Acomodei cuidadosamente uma por uma as garrafas, seis no compartimento extra-gelado, as outras empilhadas nas prateleiras abaixo. O refrigerador repleto de garrafas de Serramalte. Coloquei o termostato no médio. O dia passou como vento. Acordei domingo, não deu sequer tempo de fazer um mate. Imaginei comprar umas carnes e assá-las. Ficou na imaginação. Do meio dia para duas da tarde, num piscar de olhos e num mergulho profundo dentro d´água. Foram embora. Nenhuma garrafa foi tocada. As 21 garrafas de Serramaltes ali permaneceram, intactas, prontas para um verdadeiro dia.

terça-feira, março 04, 2008

JOÃO SEM MEDO

"OS NÚMEROS" - crônica de João Saldanha, publicada no O GLOBO, em 23.06.1970

"CIDADE DO MÉXICO - Uma coisa muito importante para o futebol foi amplamente comprovada nesta Taça do Mundo. Quero me referir aos sistemas de marcação 'por número´.
Penso que é dever ser considerado ridículo falar sobre futebol moderno tentando enumerar as linhas do campo.
Assim, quem quiser explicar um jogo de futebol moderno dizendo ou escrevendo que esta ou aquela equipe jogou 4-2-4 ou 5-2-3, ou se quiserem ainda 4-4-2 e ainda mais 4-3-3, está enganando os leitores ou ouvintes.
Estou falando, é claro, sobre futebol moderno. Qualquer futebol numérico, nos dias de hoje, é antiquado. Qualquer equipe que jogar uma partida e no dia seguinte o comentarista puder dizer aritmeticamente ou geometricamente como jogou, isto significa que a tal equipe jogou futebol antigo.
É certo que se pode dizer que um quadro jogou fazendo marcação por 'zona', ou que outro jogou fazendo marcação por 'homem a homem', ou com 'líbero'. Muito bem, isto está certo.
Como jogou o Brasil, por exemplo, contra a Itália ? Respondo que o Brasil jogou marcando todo o campo. Onde houvesse perigo tinha um jogador de camisa amarela disputando a bola. Houve ocasiões em que Pelé e Tostão estavam perto de Brito e até na cobertura. Mesmo que o esquema geral de jogo previsse que quem deveria ajudar a defesa eram Jair e Rivelino, Pelé e Tostão retornavam porque o perigo estava mais próximo deles.
Isso quer dizer que qualquer rigidez de jogo deve ser abandonada por quem queira jogar futebol sério.
Os italianos foram antiquados no seu sistema de jogo. Por exemplo: Jair deslocava-se para o meio de campo, Fachetti o acompanhava e uma 'avenida' maior do que o 'Paseo de la Reforma' ficava aberta para o Carlos Alberto entrar e se constituir sempre em perigo permanente para a meta de Albertosi.
Mesmo que Carlos Alberto não tivesse condições de atacar, de todos os modos se constituia sempre em jogada de descanso para a seleção brasileira. Lógico! Carlos Alberto não tinha a quem marcar e andou pelo campo livremente.
Evidentemente isto não estava previsto num esquema rígido e o quadro brasileiro aceitou tudo que lhe foi oferecido.
A Taça do Mundo de 1970 evidenciou de maneira clara e nítida que os sistemas 'numéricos' e os sistemas 'rígidos' pertencem ao passado."

REFORMA TRIBUTÁRIA

O Poder Executivo encaminhou ao Congresso um Projeto de Emenda Constitucional contemplando "Reforma Tributária". Dentre as principais propostas estão a extinção de diversas contribuições sociais como COFINS, PIS e CIDE e, em sua substituição, a criação de um tributo denominado IVA (Imposto de Valor Agregado), bem como a unificação da legislação do ICMS via legislação federal.

A proposta não é e fica bem distante das necessidades do país. Aliás, reforma tributária de verdade, no Brasil, é algo praticamente impossível, porque os diversos jogos de interesse envolvidos jamais chegarão a uma comunhão de vontades. Municípios, Estados e União possuem interesses antagônicos e incompatíveis; empresários e trabalhadores lutam, noutras trincheiras, por alterações que contemplem menor carga tributária e maiores direitos laborais; e, finalmente, o contribuinte, parte menos fraca nas relações tributárias, pretende diminuição dos ônus e maiores serviços sociais. Todos esses interesses jamais serão integralmente atendidos.

E, partindo desse contexto, nota-se que é bastante complicado falar em "reforma tributária". O projeto encaminhado nada mais é do que uma proposta de simplificação do sistema tributário, tanto na esfera federal como dos Estados-federados. E aí reside, exatamente, seu único ponto positivo. Simplificar o sistema, por via transversa, é diminuir os ônus tributários, o que já é bastante positivo. Porém, não haverá redução da carga tributária; não haverá redistribuição dos tributos entre os entes federados e não haverá, ao menos substancialmente, menores custos à contratação de trabalhadores.

A menos que o Congresso aprofunde o projeto, pela via de emendas, estaremos bem distantes de ter, efetivamente, uma reforma tributária. Para isto, seria necessário, além de alterar a denominação dos tributos, alterar o sistema de distribuição das verbas públicas e ir a fundo no tema das atribuições, receitas e competências de cada ente federado (o sistema instaurado pela Constituição de 1988 foi perverso com os Estados, hoje, em sua maioria, falidos). Mais ainda, do ponto de vista da iniciativa privada, seria fundamental estabelecer programa de benefícios tributários cumulativos à produção (não bastando a demagógica proposta de isentar de tributação produtos de necessidade básica - como óleo, pão e outros).


sexta-feira, fevereiro 22, 2008

POBRE PAULISTA

Hoje acordei cedo; liguei a televisão no Bom Dia Brasil. E as imagens e narrativas que vejo de São Paulo são das mais terríveis que já assisti. As chuvas, desta vez, castigaram por demais a paulicéia. Depois de uma noite de estiagem, o cenário de filme de terror permanece, as ruas estão cobertas de lama, carros e até mesmo caminhões virados do avesso por sobre as calçadas, muros desmoronados, cercas derrubadas. Caos total.

E o pior de tudo é saber que esse é um problema sem solução. Não há governo que consiga solucionar a questão dos alagamentos, porque ele é estrutural e decorrente do péssimo planejamento urbano de uma cidade que cresceu desorganizadamente para todos os lados. Há concreto demais. E aonde há concreto demais a água corre ou se acomoda em poças, porque somente a terra é capaz de absorvê-la. O problema de São Paulo e a falta de terra. Pobre paulista!

quinta-feira, fevereiro 21, 2008

KOSOVO - PAÍS FANTASMA

A província autônoma do Kosovo autoproclamou sua independência da República Sérvia. Prontamente, as principais nações da Comunidade Européia reconheceram-na como um novo país. Alemanha, França e Inglaterra, as principais nações; os americanos também pronunciaram sua concordância. Espanha, Grécia e Chipre, todos países com semelhantes divergência étnicas internas, no outro extremo, não reconhecem o novo país.

E a questão não é tão singela e não depende apenas da "boa vontade dos povos". Primeiro porque a Organização das Nações Unidas tem um conjunto de regras que disciplinam a questão da proclamação de independência de um povo e da criação de novas nações. E, no caso de Kosovo, tais regras não foram cumpridas. De outra parte, as conhecidas divergências étnicas entre a população sérvia (católicos) e albanesa (muçulmanos), que já eclodiu, inclusive, na guerra civil no final dos anos 90, certamente, terá novos capítulos sangrentos.

A Rússia, com severos interesses econômicos na região, e forte intervenção política, também já manifestou a intenção de barrar, na ONU, o reconhecimento do novo país. O mesmo caminho deve seguir a China (preocupada com a possível repercussão do episódio em Taiwan e no Tibet). Ambas tem assento no Conselho permanente da Organização das Nações, com poder de veto para tais temas.

Enfim, muita água vai rolar nos balcãs até que o Kosovo deixe de ser um país fantasma.

terça-feira, fevereiro 19, 2008

E AGORA CUBANOS ?

A renúncia de Fidel ao trono de Cuba, certamente, já é o fato mais marcante do ano de 2008. Depois de quase meio século no poder, Fidel se licencia, vencido pela idade e pela doença. Deixa o poder para seu irmão Raul, mas não creio que este terá a força e o carisma do "comandante" para se protelar na Presidência da Ilha. Os cubanos, agora, terão a oportunidade de mostra ao mundo se Fidel foi herói ou vilão.

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

BASTIDORES DOS VESTIÁRIOS

Há tempos estou para escrever a respeito do episódio entre Romário e E. Miranda, no Vasco da Gama, no qual o dirigente afirmou que interfere sim na escalação da equipe e técnico que quiser ter vida longa em São Januário terá de se submeter à suas idéias de futebol. Mas foi oportuno não tê-lo feito, porque, agora, o episódio envolvendo a demissão de V. Mancini do Portoalegrense traz nova vida ao tema. O ex-treinador da azenha declarou em sua saída que houve tentativa de intervenção do diretor de futebol P. Pelaipe, com a qual não poderia concordar, tendo acarretado sua resistência na demissão.

Bueno, acompanhei os episódios e as opiniões dos "doutos" comentaristas (99,9% contrárias à intervenção dos dirigentes). E, sinceramente, não posso concordar. Dirigente de futebol tem sim o dever de intervir na escalação do time. Afinal de contas, ele é o mandatário maior do torcedor; ele é eleito para comandar, da melhor forma, a agremiação; ele é eleito, num clube de futebol, porque, presume-se, conheça e entenda do riscado. O que não entra na minha cabeça é essa "permissividade" que o futebol brasileiro confere aos treinadores, especialmente os de renome, de alcançarem o vértice da pirâmide no organograma do clube. Com dirigentes despreparados e sem competência para assumirem a função, os técnicos adquiriram funções outras que não a de administrar o grupo, treiná-lo e escalá-lo da melhor maneira possível. Agora também contratam (ou criticam a ausência de contratações), fazem comentários sobre as finanças do clube e se imiscuem em assuntos administrativos, com a maior desenvoltura.

No caso Romário, E. Miranda exigiu a escalação de um jogador 'prata da casa', com ótimas condições de se transformar, em futuro breve, num ótimo negócio para o clube. No caso Mancini, a direção exigia que o time tivesse maior competitividade e poder de marcação, típicas características da agremiação no decorrer da história. Em ambos, tanto pela valorização do patrimônio como pela preservação das tradições, agiram de forma correta os dirigentes.

sexta-feira, fevereiro 15, 2008

O HOMEM e O MAR

Chico Science

"DEIXA QUE OS FATOS SEJAM FATOS NATURALMENTE
SEM QUE SEJAM FORJADOS PARA ACONTECER
DEIXA QUE OS OLHOS VEJAM OS PEQUENOS DETALHES LENTAMENTE
DEIXA QUE AS COISAS QUE LHE CIRCUNDAM ESTAJAM SEMPRE INERTES
COMO MOVEIS INOFENSIVOS PARA LHE SERVIR QUANDO FOR PRECISO
E NUNCA LHE CAUSAR DANOS:

SEJAM ELES MORAIS, FISICOS OU PSICOLOGICOS" (Chico Science)

terça-feira, fevereiro 12, 2008

JOÃO SEM MEDO

Tive um final de semana sensacional; o tempo inteiro empunhando "Vida que segue - João Saldanha e as Copas de 1966 e 1970". Trata-se de obra organizada por Raul Millet, através da qual são eternizadas as crônicas escritas por João Saldanha à época das Taças do Mundo. O conteúdo das colunas não é só sensacional, mas, principalmente, de surpreendente atualidade. Mais de três décadas se transcorreram, mas as observações do mestre Saldanha permanecem quase que integralmente pertinentes, a revelar um homem muito além de sua época.

Alguns textos são provocativos, outros denunciam, vários ensinam, muitos redesenham no papel jogadas inesquecíveis; alguns fazem chorar, tamanha a emoção que carregam. Como disse Villas Boas Correa, sua narrativa era feita em linguagem despojada, com fantástica capacidade de escrever no mais puro coloquial. João Saldanha foi personagem marcante não só do desporto nacional; era jornalista como todos os jornalistas deveriam ser. Nas palavras de Carlos Vilarinho, "usou como poucos o canhão (o microfone). João era um homem público, um tribuno popular (amado e temido), embora frequentemente tolhido por um Estado policial. Assistente político dos guerrilheiros camponeses, hábil organizador dos operários. Dirigente partidário, disciplinado, mas que sabia pensar. Saldanha foi um homem de vanguarda (comunista, naturalmente). Isto explica o ódio que os democratas de fachada e os reacionários de carteirinha sempre lhe devotaram. Mas estes passarão. João Saldanha ficará.".

E, de fato, ficou. Tive a sorte de ainda pegar o João Saldanha nas mesas redondas da TV Manchete aos domingos de noite, de dedo em riste, enfrentando os dirigentes; muitas vezes o vi quase ir as vias de fato (uma vez, se não me engano, ele partiu para cima de um cartola). Nunca me esquecerei do ato corajoso do homem a beira da morte que enfrentou tudo e todos para morrer, em 1990, na Itália, de microfone na mão, comentando a Taça do Mundo (seu habitat natural). Como agradecimento às suas lições, vou compartilhar algumas crônicas com os amigos, iniciando por "Vitória da Arte", escrita após a vitória sobre a Itália e a conquista definitiva da Jules Rimet, que resume o João Saldanha diante da vida e do futebol.


VITÓRIA DA ARTE

publicada no jornal O GLOBO, em 22/06/1970

CIDADE DO MÉXICO - Antes de mais nada, quero dizer que a vitória extraordinária do Brasil foi a vitória do futebol. Do futebol que o Brasil joga, sem copiar de ninguém, fazendo da arte de seus jogadores a sua força maior e impondo ao mundo futebolístico o seu padrão, que não precisa seguir esquemas dos outros, pois tem sua personalidade, a sua filosofia e jamais deverá sair dela. Foi uma vitória do futebol. O futebol que nós gostamos de ver e aplaudir e que o mundo ontem teve que se curvar. Em segundo lugar vou fazer uma série de cobrantinas. Cobrantina de quem disse que o Brito não sabia nem amortecer a bola. Cobratina de quem disse que o Brasil não tinha ponta-direita, ou que o Jair não era ponta-direita nem no Botafogo. Hoje está aí o Jairzinho, consagrado com o melhor ponta-direita da Taça do Mundo. Cobrantina de quem disse que o Tostão e Pelé não podiam jogar juntos. E poderia ir por aí afora, fazendo uma série de cobrantinas, mas o dia é de alegria. É de vibração e confesso que estou emocionado. Esta equipe do Brasil, que marca 41 "goals" e sofre apenas 9 tentos na sua campanha no Mundial, contando com os jogos das eliminatórias, é uma seleção. É um timaço de futebol, que adquiriu consistência em suas linhas, sem que lhe roubasse o seu estilo, a sua característica, e aí uma das principais razões do sucesso. É justa a nossa vibração e a minha, em particular, é pela vitória da arte, que continua sendo, dentre as mais variadas concepções do futebol moderno, a verdadeira razão de se encherem os estádios e a identificação mais sólida e decisiva do futebol do Brasil." (João Saldanha)




segunda-feira, fevereiro 11, 2008

PIZZA

Todo mundo sabe como acaba uma CPI. Todas até agora terminaram em pizza, sem qualquer resultado concreto, sem bandido na jaula e sem a devolução dos dinheiros públicos surrupiados. Pois agora o Congresso resolveu inovar. A base governista e os congressistas de oposição fizeram acordo e a CPI da vez (dos cartões corporativos) já inicia repleta de restrições. Vergonha é pouco para definir.

Aliás, há longa data sustento que comissão parlamentar de inquérito se destina a outras finalidades; nossos congressistas não têm sequer idéia do "por que" de terem sido eleitos, de suas funções. Enquanto a cena teatral das CPIs se repete indefinidamente, com super-exposição na mídia, nosso Congresso continua não enfrentando as matérias fundamentais ao desenvolvimento do país (reformas política e tributária, por exemplo).


sábado, fevereiro 09, 2008

CHANCELA FIFA


Acabou definitivamente a polêmica. A FIFA já havia se pronunciado no sentido de reconhecer apenas QUATRO clubes (AC Milan, SC Internacional, São Paulo e Corinthians) como legítimos CAMPEÕES MUNDIAIS DE CLUBES. A quase unanimidade dos clubes, incluindo os multicampeões Boca Jrs., Real Madrid, River Plate, Internazionale de Milão e outros, reconhecem, com orgulho, sem seus sites que venceram a COPA INTERCONTINENTAL (a exceção é uma agremiação menos cotada com a qual temos a infelicidade de conviver aqui pelos pagos). Enfim, já havia um consenso mundial a respeito.

Pois agora não há mais o que debater. Não tem mais conversa para invejoso. A FIFA deciciu conceder aos CLUBES CAMPEÕES MUNDIAIS um distintivo especial alusivo à conquista. Basta clicar aqui para conferir a matéria no sítio da FIFA. Isso mesmo, nosso distintivo de CAMPEÃO MUNDIAL, em breve, estará chegando no BEIRA-RIO.

O resto é papo furado e choro de invejoso!


sexta-feira, fevereiro 08, 2008

LIXO

É estarrecedor o dado. Um mês depois do início do processo de limpeza no Arroio Dilúvio, foram retiradas mais de 66 toneladas de lixo, composto em sua maioria por embalagens e garrafas tipo 'pet'. Um passeio no final de tarde pelas praias revelará, também, a total falta de compromisso dos veranistas com o meio ambiente. Idem nos principais parques e praças públicas. E, para piorar, não se trata, com certeza, de um male restrito ao Rio Grande.
É certo que quanto mais consumista se torna nossa sociedade, maior a quantidade de lixo produzida. A falta de educação, entretanto, é o grande fator negativo.