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domingo, outubro 09, 2016

A foto

por Moises Mendes



Aí está a foto que um juiz tentou evitar que fosse feita. É Dilma Rousseff votando domingo, na Escola Santos Dumont, na Assunção.

Eu escrevi esta semana que talvez a foto não existisse mesmo. O jornalista Mário Marcos de Souza compartilhou meu texto no Facebook e outro jornalista, o Marco Estivalet, escreveu um comentário dizendo que a foto existia, sim. Marco me enviou a foto agora há pouco.

Então, o que o juiz conseguiu foi evitar que fotógrafos e câmeras profissionais entrassem na escola e fizessem a imagem. Mas um amador estava lá com seu celular.

Marco me contou que estava próximo do colégio com um casal de amigos, quando um senhor de botas e bombacha apareceu contando que fotografara Dilma. Disse que se chamava Sebastião.

A imagem foi compartilhada ali mesmo. Marco relembra:

– Na hora, decidimos que a imprensa não merecia aquele troféu mostrando a presidenta Dilma votando.

Sebastião foi embora e a foto foi para o Facebook e está aí de novo para quem não viu. Resumindo: um eleitor chamado Sebastião fez a foto que o juiz tentou evitar, com o argumento de que estava preocupado com tumultos. O que ele conseguiu foi provocar um tumulto.

No comentário da página de Mário Marcos, Marco Estivalet faz a seguinte observação: “Eu apenas acrescento ao comentário do Moisés que esse juiz que proibiu as fotos é um babaca antipetista”.

Vamos esperar que Sebastião esteja de novo na Escola Santos Dumont, no dia 30 do segundo turno, ao lado de fotógrafos, cinegrafistas, repórteres e centenas de pessoas que certamente irão à escola para ver Dilma.

A democracia deve exaltar, e não esconder o momento do voto de uma presidente eleita e golpeada.

quinta-feira, setembro 29, 2016

O Golpe é mais forte do que se pensava


O manifesto contra o “autoritarismo jurídico”, assinado por intelectuais de várias áreas, não vai sair nem em canto de página dos jornais impressos. Nem na versão online. Jornais não querem saber de manifestos.

O que o próprio manifesto revela é que mais uma denúncia dos exageros das instituições, que têm atuado politicamente sempre contra os mesmos alvos, talvez não resulte em nada.

Porque só seus autores e outros poucos se rebelam, mesmo que em manifestos, contra a ação seletiva da Polícia Federal, do Ministério Público e do Judiciário. O país vai sendo anestesiado pelo golpe.

Paulo Sergio Pinheiro, Wanderley Guilherme dos Santos, José Miguel Wisnik, Saturnino Braga, Alfredo Bosi, Frei Beto, Jurandir Freire Costa, Bresser Pereira e outros serão ouvidos por nós, por quem agora me lê e pelos que pensam como eles.

Os que apoiam o golpe, o show do Ministério Público, as regras da masmorra de Curitiba e o “legalismo” do juiz Sergio Moro não querem saber de manifestos. Eles querem levar o golpe adiante.

A sensação geral é de que até manifestos perderam força e sentido no ambiente do fascismo institucionalizado versão século 21. Fazer o quê?

Talvez agir nas nossas rotinas, além do retórico, e criar impasses que quebrem silêncios e mesmices no espaço de trabalho, na atividade de cada um. Imagino o dia em que tivermos gestos fortes, além de palavras.

O dia em que um grupo puxará uma universidade inteira para uma tarde de reflexão sobre o golpe. Parar as universidades por uma tarde. Será que param?

Imagino também a tarde em que alguns terão o peito de pedir que uma redação de jornal pare. Por uma ou duas horas. E que a redação discuta o golpe, os exageros das instituições e a contaminação das próprias redações pelo golpismo.. Será que param?

Ah, o tempo em que uma redação parava. Se uma redação não para, o que pode ser parado? Se intelectuais largam notas, mas a maioria dos colegas está resignada com o golpe, fazer o quê?

Param por salários, por melhores condições de trabalho, mas não param por ideias?

Talvez o país já esteja aceitando a República de Curitiba e a República do Jaburu, com Padilha, Moreira Franco, Serra, Geddel e esse estranho ministro da Justiça como parte da nossa normalidade.

Falta algo mais do que manifestos. O golpe é mais forte do que se pensava, ou todos nós somos mais fracos até do que eles pensavam que fôssemos.