Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela,
abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo
- para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.
Mario Quintana
sexta-feira, março 09, 2007
SONETO DE FIDELIDADE
De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
Vinícius de Moraes
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
Vinícius de Moraes
BUSH NO BRASIL
A visita de George W. Bush Jr. ao Brasil e a outros países da América Latina, é claro, tem interesses econômicos. Não quero, aqui, debater tal questão. A meu sentir, é evidente que, além do pano de fundo (assinatura de acordos de cooperação tecnológica para produção do etanol), os americanos vêem ao Brasil para utilizar nosso país como fantoche na guerra diplomática que se inicia na América Latina.
Afinal, a simples assinatura de acordos de cooperação tecnológica, assim como visitas a centros de produção, tradicionalmente, são atos realizados por emissários de terceiro ou quarto escalão, ainda mais em se tratando da maior potência econômica mundial. Toda visita de Chefe de Estado a outra Nação guarda sempre um fim político. Assim foi com a ida de Lula ao continente africano e, mais recentemente, ao Uruguai, país vizinho que vinha se afastando, gradativamente, da União do Mercosul. Mas, nesse caso da visita de George W. Bush Jr., parece-me que o protocolo oficial mascara as reais finalidades, buscando, com isso, desviar as reais intenções da missão.
O pró-alcool, projeto brasileiro pioneiro na produção de biocombustível remonta ao final da década de setenta. Pois bem, Ronald Reagan visitou o país em meados da década de oitenta e não recordo de qualquer interesse por nosso programa de combustível alternativo - aliás, os americanos nem sabiam da existência do programa nesta época. Mais recentemente, no final dos anos noventa, Bill Clinton, ainda ocupando a presidência dos Estados Unidos, veio ao Brasil e não se ouviu falar de qualquer projeto no sentido de desenvolver um mercado mundial de etanol, como se ouve agora.
Volto, então, à idéia inicial. Não tenho dúvidas de que a missão de George W. Bush Jr. ao Brasil tem nítida intenção de provocar discórdias. Um cenário de cooperação das nações latino americanas não interessa aos Estados Unidos. Isso já ficou claro através de diversos atos diplomáticos norte-americanos tendentes a desestabilizar a consolidação do Mercosul. A técnica de aproximação individualizada com os vizinhos sul-americanos, via tratados privilegiados, são ilustrações dessa política desestabilizadora. Agora, em meio à crise petrolífera mundial, sabedores de que a Venezuela, assim como Brasil (e até mesmo a Argentina), possuem reservas consideráveis, bem como outras fontes alternativas, capazes de tornar a América Latina unida numa perigosa ameaça à imperial soberania econômica, os Estados Unidos posam de bons samaritanos dispostos a cooperar tecnologicamente com o desenvolvimento de nosso já antigo projeto de biocombustível.
Torço para que nossa política internacional não esteja submissa às barganhas; até porque bem sabemos que os norte-americanos, tradicionalmente, não são cumpridores dos acordos e tratados que assinam. O jogo de beleza (protagonizado por Hugo Chavez e Evo Morales) e os pequenos incidentes diplomáticos atualmente verificos na América do Sul, sem dúvida, interessam por demais aos Estados Unidos. Ao Brasil cabe manter-se longe de tais atritos, abandonando o já tradicional papel de estabilizador das relações continentais, como fantoche norte-americano, e assumindo verdadeiramente a condição de condutor e aliado de um grupo econômico de nações com plenas condições de desenvolvimento sustentável.
BUSH NO BRASIL 2
Vinha acompanhando nos jornais, revistas e telejornais as notícias da visita de George W. Bush Jr. ao Brasil. Sem maiores digressões teóricas, vejo com grande descontentamento nossa submissão às exigências da paranóica rede de segurança dos norte-americanos. Ruas foram fechadas, quarteirões inteiros bloqueados, inclusive para pedestres, causando um transtorno sem precedentes na vida do cidadão comum brasileiro. E agora ouço no rádio que em São Paulo houve violentos choques entre manifestantes, a maior parte estudantes e jovens, e a polícia. Que visita dispensável essa!
domingo, março 04, 2007
COLORADO PELEADOR
O Colorado dos Pampas deu hoje mais uma demonstração incrível de grandeza, força e tradição. Foi jogar em Novo Hamburgo pelo Gauchão, num jogo que se previa complicado. O adversário estava bem colocado na tabela e jogar em Nóia sempre é tarefa complicada. Mas jamais poderia esperar tamanha complicação. Abel Braga tentou de tudo para não ganhar o jogo, fez alterações incompreensíveis, jogou a equipe num "esquema correrio danado". Tudo indicava que ficaríamos no 1x0 para o Nóia, porque a pressão do Internacional era desordenada. Até que, nos 5 minutos finais, pesou a camisa e a tradição Colorada. Dois gols marcantes, de garra, de força, de time peleador (aliás, essa a grande virtude de Abel, a quem recém critiquei; tornou o grupo do Internacional num time peleador, que jamais se entrega).
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Vida longa ao Colorado Peleador!
VIDEOS
O amigo Humberto Lippo recomenda dois vídeos sensacionais do INTERNACIONAL.
Vale a pena conferir:
http://www.youtube.com/watch?v=14qxuDwWmh4
http://www.youtube.com/watch?v=-1I0_Dd2Zi0
Saudações rubras.
Vale a pena conferir:
http://www.youtube.com/watch?v=14qxuDwWmh4
http://www.youtube.com/watch?v=-1I0_Dd2Zi0
Saudações rubras.
sábado, março 03, 2007
DESOBEDIÊNCIA CIVIL
"Pois o Governo é uma conveniência pela qual os homens conseguem, de bom grado, deixar-se em paz uns aos outros, e, como já se disse, quanto mais conveniente for, tanto mais deixará em paz seus governados" (p. 7)
"A grande maioria dos homens serve ao Estado desse modo, não como homens propriamente, mas como máquinas, com seus corpos. São o exército permanente, as milícias, os carcereiros, os policiais, os membros da força civil, etc. Na maioria dos casos não há um livre exercício seja do discernimento ou do senso moral, eles simplesmente se colocam ao nível da árvore, da terra e das pedras. E talvez se possam fabricar homens de madeira que sirvam igualmente a tal propósito. Tais homens não merecem respeito maior que um espantalho ou um monte de lama. O valor que possuem é o mesmo dos cavalos e dos cães. No entanto, alguns deles são até considerados bons cidadãos. Outros - como a maioria dos legisladores, políticos, advogados, ministros e funcionários públicos - servem ao Estado principalmente com seu intelecto, e, como raramente fazem qualquer distinção moral, estão igualmente propensos a servir tanto ao diabo, sem intenção de fazê-lo, quanto a Deus. Uns poucos - como os heróis, os patriotas, os mártires, os reformadores no melhor sentido e os homens - servem ao Estado também com sua consciência, e assim necessariamente resistem a ele, em sua maioria, e são comumente tratados como inimigos." (pp. 10-11)
"Não importa quão limitado é o começo: aquilo que é bem feito uma vez está feito para sempre." (p. 27)
"O melhor que um homem pode fazer por sua cultura, quando enriquece, é tentar pôr em prática os planos que concebeu quando pobre" (p. 32)
Henry Thoureou, Desobediência Civil, LP&M, 1997
quinta-feira, março 01, 2007
Amanheceu...
Amanheceu novamente, da noite para o dia sem pausa. Os primeiros contrastes no céu escuro, faixos de luz desregulados, o azul tentando predominar em meio às nuvens, o canto dos pássaros, o sol chegou antes do sono.
Paraísos Artificiais
"Mas o dia seguinte! O terrível dia seguinte! Todos os órgãos relaxados, cansados, os nervos acalmados, os titilantes desejos de chorar, a impossibilidade de se dedicar a um trabalho contínuo, mostram-lhe cruelmente que você se entregou a um jogo proibido. A natureza medonha, despojada de sua iluminação da véspera, assemelha-se aos restos melancólicos de uma festa. A vontade, sobretudo, é atacada, de todas as faculdades a mais preciosa. Dizem, e é quase verdade, que esta substância não causa nenhum mal físico, nenhum mal grave, ao menos. Mas é possível afirmar que um homem incapaz de ação, e próprio somente aos sonhos, se portaria realmente bem, mesmo quando todos os seus membros estivessem em bom estado ?" (Charles Boudelaire, Paraísos Artificiais - o haxixe, o ópio e o vinho)
Ausência
O cenário é de totais ausências; uma breve reflexão levaria o sujeito a indagar se não estava completamente só sobre o planeta. Duas ou três largas piscadas de olho, com a mente inteiramente vazia de pensamentos ou idéias, e lá dentro, no interior de sua meditação, ouviu ruídos e sinais de alheio. Vidas, muitas vidas sinalizando à volta, em cantos e vôos. Recortava pensamentos negativos, sempre que lhe tentavam invadir. Um giro de trezentos e sessenta graus, tontura, o corpo leve novamente, sem apoios, caindo de forma suave, para acordar sobre um amplo tapete verde, rodeado de belezas, mirando a lua que pairava sobre si.
LPortinho, 27.fev.2007.
LPortinho, 27.fev.2007.
Dead Flowers
"Well when you're sitting there in your silk upholstered chair / Talkin' to some rich folk that you know / Well I hope you won't see me in my ragged company / Well, you know I could never be alone.
Take me down little Susie, take me down / I know you think you're the queen of the underground / And you can send me dead flowers every morning / Send me dead flowers by the mail / Send me dead flowers to my wedding / And I won't forget to put roses on your grave
Well when you're sitting back in your rose pink Cadillac / Making bets on Kentucky Derby Day / Ah, I'll be in my basement room with a needle and a spoon / And another girl to take my pain away
Take me down little Susie, take me down / I know you think you're the queen of the underground / And you can send me dead flowers every morning / Send me dead flowers by the mail / Send me dead flowers to my wedding / And I won't forget to put roses on your grave" (Jagger & Richards)
Take me down little Susie, take me down / I know you think you're the queen of the underground / And you can send me dead flowers every morning / Send me dead flowers by the mail / Send me dead flowers to my wedding / And I won't forget to put roses on your grave
Well when you're sitting back in your rose pink Cadillac / Making bets on Kentucky Derby Day / Ah, I'll be in my basement room with a needle and a spoon / And another girl to take my pain away
Take me down little Susie, take me down / I know you think you're the queen of the underground / And you can send me dead flowers every morning / Send me dead flowers by the mail / Send me dead flowers to my wedding / And I won't forget to put roses on your grave" (Jagger & Richards)
Assim como a vida.
O pé de caqui está coberto novamente. Como ocorre todos os anos, após a queda de todas as folhas e do enfrentamento ao inverno, inteiramente desbastado, o pé de caqui se renova; cria forças e frutifica; já no curso da primavera, mostra sinais esplêndidos de vida. Preenchido de frutos, assiste à chegada do verão, destaca-se na paisagem, atrai a presença, prepara-se para o fim de mais um ciclo.
LPortinho, Guayba, 27fev2007.
LPortinho, Guayba, 27fev2007.
sexta-feira, fevereiro 23, 2007
I'm Looking Through You
"I'm looking through you, where did you go? / I thought I knew you, what did I know? / You don't look different, but you have changed / I'm looking through you, you're not the same / Your lips are moving, I cannot hear / Your voice is soothing, but the words aren't clear / You don't sound different, I've learned the game / I'm looking through you, you're not the same / Why, tell me why, did you not treat me right? / Love has a nasty habit of disappearing overnight" (Lennon & McCartney)
PRAZER
“Tenemos que reaprender lo que es gozar. Estamos tan desorientados que creemos que gozar es ir de compras. Un lujo verdadero es un encuentro humano, un momento de silencio ante la creacion, el gozo de una obra de arte o de un trabajo bien hecho. Gozos verdaderos son aquellos que embargan el alma de gratitud y nos predisponen al amor” (Ernesto Sabato)
ONE ART
"The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.
Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.
Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.
I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.
I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.
---Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster."
-- Elizabeth Bishop
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.
Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.
Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.
I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.
I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.
---Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster."
-- Elizabeth Bishop
quarta-feira, fevereiro 21, 2007
BUKOWSKI II
"and as my grey hands
drop a last desperate pen
in some cheap room
they will find me there
and never know
my name
my meaning
nor the treasure
of my escape"
drop a last desperate pen
in some cheap room
they will find me there
and never know
my name
my meaning
nor the treasure
of my escape"
PLENOS PODERES
"A quem não ouve, nesta sexta, o mar
pela manhã, a quem dentro de alguma
casa, escritório, fábrica ou mulher,
ou rua, ou mina, ou seco calabouço:
a este eu ajudo e sem falar nem ver
chego e escancaro a porta da clausura
e um sem-fim vago se ouve na insistência,
um longo trovão roto se encadeia
ao peso do planeta e da espuma,
roncos surgem os rios do oceano,
vibra veloz em sua roseira a estrela
e o mar palpita, morre e continua.
pela manhã, a quem dentro de alguma
casa, escritório, fábrica ou mulher,
ou rua, ou mina, ou seco calabouço:
a este eu ajudo e sem falar nem ver
chego e escancaro a porta da clausura
e um sem-fim vago se ouve na insistência,
um longo trovão roto se encadeia
ao peso do planeta e da espuma,
roncos surgem os rios do oceano,
vibra veloz em sua roseira a estrela
e o mar palpita, morre e continua.
Assim pelo destino conduzido
devo sem trégua ouvir e conversar
o lamento marinho na consciência,
devo sentir o golpe da água dura
e recolhê-lo numa taça eterna
tão pura que onde esteja o encarcerado,
onde sofra o castigo do outono
eu esteja presente com uma onda perdida,
e através das janelas eu circule
e quando me escutar levante o olhar
dizendo: como chegarei ao mar ?
E eu transmitirei sem dizer nada,
os ecos estrelados de uma onda,
um quebranto de espuma e de areais,
um sussurro de sal que se retira,
o grito gris do pássaro da costa.
devo sem trégua ouvir e conversar
o lamento marinho na consciência,
devo sentir o golpe da água dura
e recolhê-lo numa taça eterna
tão pura que onde esteja o encarcerado,
onde sofra o castigo do outono
eu esteja presente com uma onda perdida,
e através das janelas eu circule
e quando me escutar levante o olhar
dizendo: como chegarei ao mar ?
E eu transmitirei sem dizer nada,
os ecos estrelados de uma onda,
um quebranto de espuma e de areais,
um sussurro de sal que se retira,
o grito gris do pássaro da costa.
E assim, por mim, a liberdade e o mar
responderão ao coração escuro."
responderão ao coração escuro."
PABLO NERUDA, "Plenos Poderes", Buenos Aires, Losada, 1962
IMPERADOR DO SAMBA
Seria muita pretensão se considerar um Imperador do Samba, mas naquela quarta-feira a noite me senti diferente. A coisa é contagiante, tudo encarnado à volta, os títulos marcados na parede da quadra de ensaio revelam tradição para poucos. A bateria é ensurdecedora, fiquei com zumbidos no ouvido por dois ou três dias. È demais, contagia, não dá para ficar parado. Entra a bateria, vem as passistas, ótimas, mulatas fantástica, perfeitas, que rebolam e sambam com maestria. A passista vinha à nossa frente e ficava rebolando e baixando até o chão, enlouquecendo-nos com sua beleza e desenvoltura. O passista era um negão picareta, todo de branco, com passinhos rápidos e malandriando os pés, fazendo trejeitos de reverência à passista. Ela no tipo esnobe soltava os quadris e deixava a rapaziada babando. E as baianas davam show, todas na casa dos 50 ou 60, com uma expressão de alegria no olhar comovente, revelando todo o esforço e paixão dedicados à Escola.
Que orgulho em dizer que eu sou da Imperadores do Samba!
LPortinho, 14.fev.2004.
PRIMEIRAS HORAS
Sentei no bar e pedi uma taça de café com leite e uma torrada de queijo. Crash! Uma batida de carros logo em frente, na esquina. Para variar um taxista em alta velocidade, dessa vez até com a razão, porque o outro carro avançara a preferencial. De toda forma, quando vi o taxi atravessado calçada a dentro não pude evitar de pensar na parcela de culpa daquele motorista, certamente motivado pela corriqueira imprudência que tanto caracteriza os taxistas. O que mais chamou minha atenção, no entanto, foi uma senhora que passava pela cena com um cachorrinho puddle na coleira e acenava para as duas placas de "pare" colocadas uma em cada lado da rua e bradava: "e olha que tem duas placas hein!", olhando fixamente para a motorista do carro que avançara a preferencial, a essas alturas já na calçada para se justificar com o motorista do taxi. Em frente ao bar já se reuniam o garçom, o chaveiro, o manobrista do estacionamento e um tiozinho de chinelo e meias que deve ser morador da vizinhança, cada qual fazendo o seu comentário a respeito do episódio. A senhora do bar alertou que diariamente ocorrem freiadas bruscas e que não era o primeiro sinistro. Sorvi um gole de café e pensei a respeito desse instintivo ato de o ser humano se posicionar diante dos fatos; achei interessante aquilo, por mais caótico que esteja este mundo, as pessoas não deixam de expor suas opiniões e demonstrar raciocínios muito coerentes. Dessas primeiras horas, fiquei com a impressão de que quando se acorda cedo a vida acontece perto - os ambulantes arrumando seus estantes na Praça da Alfândega; pessoas indo e vindo na Rua da Praia, com pressa para cumprir suas rotinas; ônibus que chegam e saem das paradas sem pausa; os primeiros raios de sol do dia refletindo nos prédios antigos do Centro. Tudo muito vivo e intenso!
LPortinho, Porto Alegre, 3.junho.2006.
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